Apenas Um Peregrino
Ficha técnicaTítulo: Apenas Um Peregrino
Autores: Garth Ennis, Carlos EsquerraCapa cartão • 244 páginas • Mythos Editora
Sinopse da edição: Nos dias antes da “Queimada” — quando o sol torrou a Terra e fez os mares evaporarem —, o Peregrino era um soldado que perdera seu caminho e sua conexão com a humanidade, tornando-se uma criatura depravada… até encontrar o Senhor e um novo propósito em uma nova Terra. Apresentando o humor negro associado às obras mais infames de Ennis, a saga Apenas um Peregrino se encontra aqui reunida pela primeira vez em um único volume. É o mundo pós-apocalíptico, desesperançado e incrivelmente fascinante desse autor, ilustrado de maneira brilhante pelo artista Carlos Ezquerra. Além da minissérie e de sua continuação (Jardim do Éden), esta edição traz uma galeria de capas apresentando a arte de Tim Bradstreet, J. G. Jones, Glenn Fabry e muitos outros mestres da Nona Arte!
Em um mundo que já acabou, acontece o desenrolar de duas histórias cujo principal ator é o Peregrino. Enquanto a primeira história conta a origem do personagem e o quão ele é preparado para o fim dos tempos, a segunda história oferece a conclusão e onde há salvação para a humanidade.
Minissérie principal
Não há poucos esforços em demonstrar que o Peregrino está pronto para tudo. Logo no começo da jornada somos introduzidos ao grupo de pessoas que está sendo atacada pelo antagonista da história: Castenado. Por que ele está perseguindo essas pessoas? Não temos essa resposta, apenas que ele é um sujeito que tem mais lugar no mundo ferrado do que no mundo civilizado. Doido por controle e sendo uma figura extremamente narcisista, não aceita perder para ninguém, então continua indo atrás de terminar com a vida do Peregrino. Castenado daria um ótimo vilão em The Walking Dead, assim como em qualquer mundo pós-apocalíptico.
O grupo é atacado diversas vezes, mas só consegue se salvar graças ao personagem principal. Durante as salvações, vemos uma parte do mundo após o fim: monstros, doenças, cenários longe da realidade (o trajeto é o chão do oceano, já que ele secou).
Com o passar do tempo, uma criança do grupo chamada Billy vai criando uma relação com o Peregrino. É até incrível que o personagem principal tem uma certa noção e carinho por Billy.
Billy escreve em seu diário, cujo balões recordatórios e explicativos aparecem com base no que Billy escreveu. Billy vê no Peregrino uma figura de segurança e começa a admirá-lo, cria interesse pela Bíblia e vai além da ordem dos pais em não interagir mais com ele.
Mas quem é o Peregrino e por que ele é preparado para tudo? Ex-militar que foi forçado a virar canibal para sobreviver e tomou gosto em comer carne, foi preso por isso e criou uma super finalidade em Deus. Justifica tudo e todos os seus atos com base em sua fé. Tenta converter todo mundo a enxergar as coisas de sua maneira. Grande lema do Peregrino: os fins justificam os meios, pois os meios são apoiados no Senhor. Por algum motivo eu fiquei surpreso que o Peregrino seja careca. Esperava cabelo embaixo do chapéu.
É sensacional a forma que o Castenado chega ao seu fim, e não foi pelas mãos do Peregrino, mas sim de Billy. Ele se sacrifica ao comando do Peregrino para terminar o serviço e acabar com a disputa, explodindo o local e matando a todos, com exceção do próprio pai e o personagem principal.
Durante o desespero do pai de Billy, ao entender que o filho morreu pelo comando da figura que ele admirava, blasfêmias são cometidas e o Peregrino termina com a vida dele, tendo zero noção de paternidade e demonstrando que não há circunstâncias que o faça duvidar de Deus.
O combate já antecipado entre o Peregrino e Castenado acontece. E fica evidente que o Castenado é um personagem muito mais interessante do que o Peregrino, talvez seja porque o mistério de sua origem ainda permanece. Ele não possui olhos, pênis, mãos ou pés, mas mesmo assim consegue lutar, se manter no controle e ser a figura do chefão.
Continuação da história: Jardim do Éden
Nesta história temos a conclusão da jornada de Peregrino.
Pelo mesmo fator de termos conquistado o planeta e continuarmos evoluindo e nos adaptando não importam as circunstâncias, encontramos um grupo de pessoas que conseguiu construir uma espécie de paraíso. Qualquer comida vegetal disponível, avanços na ciência e uma sociedade que explora o melhor de cada um, o Peregrino encontra o Jardim do Éden.
Por incrível que pareça, a história aponta que o fim desta sociedade será por conta do Peregrino, mas não será. Ouso dizer que se ele chegasse mais cedo, talvez teria salvado a todos.
A história é menor que a primeira, tem ritmo mais rápido e somente uma ameaça para lidar.
Há um foguete, uma trajetória para um planeta habitável e um plano pronto para os humanos restantes serem salvos, mas tudo dá errado e quase todos morrem por uma espécie de água-viva modificada que controla mortos.
Nesta pseudo civilização há uma menina que perdeu o pai e não sabe que ele morreu. Ela simboliza a esperança deste povo, pois foi concebida após o fim do mundo. Ela é inocente em todos os aspectos, mas a história não deixa isso de graça e ela acaba sendo morta pelas água-viva. Aliás, as águas-vivas são seres conscientes e que aprendem. Tendem a ser a próxima espécie dominante do planeta.
A morte dessa menina e a experiência com Billy fazem o Peregrino duvidar da existência de Deus, fazendo-o concluir que a Bíblia é um causador de problemas, e não o livro que demonstra o caminho para a salvação.
No final, as únicas 2 pessoas que sobraram da sociedade conseguem fugir e iniciam o trajeto para o novo planeta. Enquanto eles fogem, o Peregrino se sacrifica no combate com as águas-vivas. Durante a ativação do foguete, o ex-fanático religioso impede que a nova civilização conheça a palavra de Deus. Ele quis que a Bíblia não fizesse parte da bagagem.
Conclusão
Apenas um Peregrino demonstra que o avanço e a salvação não vêm de uma força divina, mas dos próprios seres humanos. A obra ironiza a religião de maneira bastante interessante: em um primeiro momento, pode até parecer uma história favorável à fé, mas, no final, toma um caminho completamente oposto.
Para aqueles mais devotados à fé, a devoção do Peregrino pode até despertar certo entusiasmo, tamanha é a sua entrega religiosa. É quase um clímax quando, ao final, a Bíblia é abandonada, revelando de forma definitiva a verdadeira posição do autor. Por trás de toda a provocação e do humor negro, a mensagem é bastante clara: a salvação não deve ser esperada de uma entidade divina, mas precisa partir de nós mesmos.
O humor negro, já esperado para quem conhece o trabalho do autor, contribui para essa abordagem e torna a leitura ainda mais provocativa. É uma ótima obra, capaz até de enganar leitores devotos que não chegarem à leitura até o final. Pensando nisso, seria extremamente engraçado, e bastante irônico, encontrar Apenas um Peregrino em um acervo religioso.